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Rondônia vira rota de contrabando de migrantes para os Estados Unidos
Relatório aponta redes em cidades rondonienses, cobranças de até R$ 80 mil e conexões com México
Rondônia passou a ocupar posição central nas rotas de contrabando de migrantes que levam brasileiros aos Estados Unidos da América (EUA), segundo relatório publicado em 2026 pela Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM).
O documento aponta Porto Velho como ponto de partida do trajeto mais usado e cita redes com presença ou indícios de atuação em Cacoal, Ji-Paraná, Ouro Preto do Oeste, Buritis, Nova Mamoré e distritos da capital. Cerca de 15% dos brasileiros atendidos pelo programa federal “Aqui é Brasil“, voltado a repatriados, têm origem em Rondônia.
Os agenciadores abordam os interessados por contatos pessoais, redes sociais, aplicativos de mensagens e empresas de turismo. O serviço pode custar de R$ 30 mil a R$ 80 mil e inclui documentos, passagens e orientação durante o percurso.
A rota parte de Porto Velho, passa por São Paulo e pela Cidade do Panamá, chega ao México e segue até a fronteira dos Estados Unidos. Parte do pagamento ocorre após a entrada em território norte-americano. Há suspeita de uso de procurações para entregar a terceiros a administração de bens ou oferecer patrimônio como garantia da dívida.
Massachusetts aparece como o principal destino dos rondonienses, com recepção no aeroporto de Boston e apoio de comunidades formadas por moradores do estado que migraram antes. O relatório situa o início do fluxo de Porto Velho e Nova Mamoré em 2019, com avanço a partir de 2021.
Entre os fatores citados estão os efeitos econômicos da pandemia, a desvalorização cambial, as migrações anteriores e a perda de renda em localidades próximas a reservas extrativistas, florestas nacionais e terras indígenas. A Abin também aponta conexões entre grupos de Rondônia e pessoas ou empresas de Minas Gerais.
O estado também serviu como corredor para afegãos, bengaleses, indianos, nepaleses e paquistaneses que entravam no Brasil e seguiam por Porto Velho até Guajará-Mirim. O trecho rodoviário custava cerca de R$ 600 em táxis, quatro vezes o preço comum, enquanto a travessia do Rio Mamoré até Guayaramerín, na Bolívia, chegava a US$ 50, contra R$ 15 no transporte regular.
Esse movimento caiu a partir do segundo semestre de 2024, após mudanças nas regras de admissão no país, fiscalização na BR-364 e operações policiais. O mapa da página 62 inclui Porto Velho, Ariquemes, Buritis, Jacy-Paraná, Nova Dimensão, Guajará-Mirim, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná e Cacoal entre os municípios ligados às rotas descritas.
Tríplice fronteira e todo Brasil
No Acre, Rio Branco funciona como conexão com Assis Brasil, Brasileia e Epitaciolândia, nas fronteiras com Peru e Bolívia. O estado chegou a registrar cerca de 2 mil migrantes por ano até agosto de 2024, mas o fluxo de vietnamitas, indianos, paquistaneses e nepaleses caiu mais de 90%.
No Amazonas, Manaus e Tabatinga ligam rotas de venezuelanos e migrantes da Ásia, África e América Central. No Amapá, Oiapoque recebe cubanos que passam por Guiana, Suriname e Guiana Francesa antes de seguir para Macapá, Belém e outras regiões do país.
Roraima concentra entradas pela fronteira com a Venezuela e a Guiana. Mato Grosso recebe bolivianos e venezuelanos, parte deles após passagem por Rondônia e pela BR-364, com destino a cidades como Lucas do Rio Verde e Sorriso.
Em Mato Grosso do Sul, Corumbá integra uma rota até São Paulo usada por bolivianos recrutados para oficinas de confecção. O relatório cita o resgate de 70 pessoas mantidas em cárcere privado em Campo Grande, em janeiro de 2025.
Minas Gerais aparece como origem de mais de 60% dos brasileiros que migram de forma irregular para os Estados Unidos, com destaque para Governador Valadares, Ipatinga, Caratinga, Guanhães, Coronel Fabriciano, Virginópolis e Belo Horizonte.
No Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul funcionam como áreas de passagem, destino ou saída. Foz do Iguaçu, Chuí e Sant’Ana do Livramento aparecem entre os pontos usados nas travessias. Cubanos que entram pelo Norte seguem, em parte, até a fronteira com o Uruguai.
São Paulo ocupa o centro da logística nacional. O Aeroporto Internacional de Guarulhos recebe migrantes da África, Ásia e Oriente Médio e serve como conexão para brasileiros de Rondônia, Minas Gerais e outros estados.
A capital e a região metropolitana também abrigam imóveis usados para hospedagem antes das viagens. O relatório cita ainda Viracopos, em Campinas, como ponto de chegada de haitianos e registra suspeitas de contratos falsos de trabalho e documentos usados para obter residência no país.
A publicação retrata o cenário de 2025 e diferencia contrabando de migrantes de tráfico de pessoas. No primeiro caso, há facilitação da travessia irregular em troca de vantagem econômica. No segundo, existem coação, fraude ou exploração.
A pena prevista no artigo 232-A do Código Penal para promoção de migração ilegal varia de dois a cinco anos de prisão, além de multa. O documento ressalta que o migrante não deve ser tratado como criminoso e pode se tornar vítima de extorsão, violência, retenção de documentos e exploração durante o percurso.
Fonte: Voz da Terra.

