Política
Marcos Rocha e o Telefone Celestial – Por Daniel Pereira
/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2018/08/22/governoro_marcos_rocha_m5VTU7c.jpg)
A política rondoniense vive o ápice de sua própria novela turca, daquelas com muitos capítulos, poucos heróis e um suspense de dar inveja a Alfred Hitchcock. O enigma que assombra os corredores do CPA é um só: Marcos Rocha renuncia ou não renuncia?
O atual governador está diante de um dilema que já visitou as noites de insônia de Cassol e Confúcio. A dúvida é cruel: Rocha quer o panteão dos gigantes ou se contenta com o rodapé da história, reservado àqueles que o destino — esse brincalhão — colocou na cadeira por mero acaso?
Em entrevistas, que vão do rádio local ao mítico Jornal Nacional de Chupinguaia, o inquilino do CPA jura que fica. Mas sempre deixa uma frestinha na porta: diz que só “pica a mula” se Deus mandar um comando. É uma estratégia audaciosa. Rocha transferiu a responsabilidade do seu CPF para o Altíssimo. Espera uma ordem de serviço vinda diretamente das nuvens, como se o Criador, entre uma galáxia e outra, estivesse preocupado com o quociente eleitoral de Rondônia.
Se meu saudoso pai, Manoel Inácio Pereira, ainda andasse por estas bandas, daria um conselho grátis: “Cuidado com o segundo mandamento”. Rocha parece acreditar que tem um ramal direto com o Céu, uma exclusividade mística que seus concorrentes, pobres mortais, não possuem. Banaliza a fé como quem consulta a previsão do tempo. Esquece que, quando o Nazareno foi tentado no deserto, despachou o coisa-ruim com um “vê se me erra”, lembrando que seu reino não é deste mundo — e, por extensão, nem das coligações partidárias.
A hipocrisia palaciana ganharia em honestidade se o “Deus” de Rocha tivesse nome, sobrenome e título de eleitor. Em 2018, o “Messias” que deu o sinal foi o Jair. Mas a divindade política é caprichosa. Em 2022, o mesmo Messias ignorou o aliado Marcos Rogério, para o deleite da oposição.
Agora, em 2026, o panteão mudou. O deus da vez atende pelo nome de Flávio. E o deus Flávio já fez sua unção: escolheu seus profetas para o governo e o senado. No altar da família Bolsonaro, ao que tudo indica, o nome de Marcos Rocha não consta na liturgia principal.
O governador tem duas saídas. Ou joga as redes no Rio Madeira e vai buscar votos na raça, como fizeram seus antecessores, ou admite que o milagre de 2018 não tem reprise programada. É melhor sossegar no CPA e parar de gastar o nome de Deus em vão.
A ordem celestial não virá. Nem a de Brasília. O céu, como se sabe, anda muito ocupado para cuidar de atas de convenção
Fonte: focoemnoticia

