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Onda de violência deixa professores aterrorizados na capital

DA REPORTAGEM LOCAL
Os casos de violência no ambiente escolar mais do que triplicaram em 10 anos, atingindo o ápice em 2023, mostra uma análise de dados nacionais da Fapesp, divulgada em abril deste ano.
De acordo com dados do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), 13,1 mil pacientes foram atendidos em serviços públicos e privados de saúde, após se automutilarem, tentarem suicídio ou sofrerem ataques psicológicos e físicos no contexto educacional. Em 2013, houve 3,7 mil episódios.
Em Porto Velho, professores, pessoal de apoio e servidores de escolas públicas apontam o crescimento da onda de violência, pós pandemia. Eles relatam casos de indisciplina, desrespeito, vandalismo e até ameaças de morte feitas por alunos. Com medo da violência velada, muitos pediram afastamento em vários estabelecimentos de ensino. Todos os dias são registradas ameaças contra estes profissionais. Em muitos casos, são agredidos com palavras e até fisicamente, relata uma secretária que não quer ser identificada.
Os xingamentos, agressões e desrespeito, partem na maioria de adolescentes, que usa como escudo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). De acordo como denúncias feitas por muitos profissionais, esses agressores disfarçados de estudantes, argumentam que os educadores não podem fazer nada em relação aos xingamentos, perseguições, ameaças e intimidações, agressões físicas e vários tipos de violência praticados pelos mesmos, pois o ECA, os protege, afirma uma fonte ouvida pela reportagem do jornal 30 minutos.
Há um equívoco por parte deste público. O ECA (Lei Federal nº 8.069/90), além de garantir e assegurar os direitos destes adolescentes, também os responsabiliza pelos atos de indisciplina e qualquer outra forma de infração (Agressões, vandalismo, brigas, ameaças, entre outros) que os mesmos cometerem dentro dos estabelecimentos de Ensino e no convívio escolar. “O Eca não só contempla os diretos e deveres destes, mas também aplica sanções pelos atos infracionais cometidos pelos mesmos, quando violam as regras e leis estabelecidas, para que não haja impunidade”, alerta um ex-integrante de Conselho Tutelar em Porto Velho.

De acordo com a fonte do 30 minutos, todos os dias chegam denúncias de casos de violência nas escolas envolvendo adolescentes, inclusive meninas. Os casos são apurados e medidas para responsabilizar os envolvidos tomadas. “Nos casos mais graves, praticados por adolescentes, estes devem ser levados ao conhecimento da autoridade policial, para que se providencie a elaboração de boletim de ocorrência e requisição de laudos necessários à comprovação da materialidade do fato, requisito imprescindível no caso de instauração de processo contra o adolescente, visando a aplicação de medida socioeducativa”, informou.
EM TODO O PAÍS
Professores de escolas estaduais de São Paulo ouvidos pelo UOL relataram medo e receio de permanecer nas salas de aula. De acordo com eles, a violência aumentou após o período em que as unidades ficaram fechadas por causa da pandemia. A sensação de insegurança fez com que eles recorressem à ajuda psiquiátrica particular. Nos casos mais graves, os educadores tiraram licença e se afastaram das atividades escolares.
Eles relatam que os alunos passaram a brigar mais entre eles e com os educadores. Pesquisa apontou que 75,5% dos professores dizem que deixam as escolas por questões psicológicas. O levantamento foi feito entre novembro e dezembro do ano passado pela rede Conectando Saberes, com 6 mil profissionais. Os dados são de 2023.
Maria, que não quis se identificar, afirma ter medo de ser agredida pelos alunos —e não saber o motivo. Ela conta que recebeu ameaças. Hoje, está de licença médica. A educadora dá aula para turmas do ensino médio e diz tomar três remédios para ansiedade e depressão.

CAUSA E CONSEQUÊNCIA
A falta de investimento em educação integral, apoio psicossocial nas escolas, formação continuada de professores e ações intersetoriais (saúde, assistência social, segurança) contribuem para o agravamento da situação, afirma um professor da rede pública de Porto Velho. Para ele, a escola é deixada sozinha para lidar com problemas que ultrapassam sua função pedagógica.
Terror
Segundo denúncia de orientadores educacionais e cidadãos que atuam em projetos comunitários ligados à Educação, em muitas escolas, principalmente localizadas na periferia da capital, as ameaças são tão violentas que criam clima de terror, situação que já causou síndrome do pânico em muitos professores e diretores de estabelecimentos, fazendo com que os mesmos não queiram mais voltar para as atividades e salas de aulas.
“Por não aceitarem as orientações dos professores e normas estabelecidas, ou mesmo por serem chamados a atenção por atos de rebeldia e vandalismo, estudantes de até 13 a 14 anos, fazem ameaças de morte, quebrar veículos e até incendiar a escola. Outros dizem que conhecem gangues e marginais e irão se vingar dos professores”, disse um denunciante.
Não adianta realizar somente ações de orientação, criar cartilhas informativas e palestras para resolver o problema da violência nas escolas. “É necessário a implantação de políticas públicas que realmente deem resultados e que haja uma gestão democrática nas escolas. Os pais não podem se eximir da educação de seus filhos e colocarem responsabilidade para as escolas. Tem que haver um acompanhamento destes pais em relação ao desempenho deles nas atividades escolares”, alerta. De acordo com a fonte do jornal 30 minutos, a falta de estrutura familiar, questões socioculturais e econômicas também colaboram para que essa situação se agrave a cada dia.

Fotos: meramente ilustrativas

