Reportagem Especial
90 Ogivas no Escuro: A Face Oculta da Capacidade Nuclear de Israel
Estimativas indicam que Israel detém cerca de 90 ogivas nucleares; país nunca aderiu ao Tratado de Não Proliferação e rejeita inspeções da AIEA
Por mais de sete décadas, Israel mantém um programa nuclear cuja existência, embora não oficialmente admitida, é amplamente reconhecida por especialistas e instituições internacionais. Sem jamais ter assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), o país permanece fora do sistema de salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o que o torna um caso singular no cenário global.
Estudos da Federação de Cientistas Americanos e da Associação de Controle de Armamentos, ambas sediadas nos Estados Unidos, apontam que o arsenal nuclear israelense pode conter até 90 ogivas. Pesquisadores, no entanto, sugerem que esse número pode ser ainda mais elevado, diante da ausência de transparência e da inexistência de inspeções externas.
A origem do programa remonta à década de 1950, com a instalação de um complexo nuclear na cidade de Dimona, ao sul de Jerusalém. Conforme documentado pelo historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, em sua análise geopolítica A Segunda Guerra Fria, esse esforço foi conduzido pela Comissão de Energia Atômica de Israel, no âmbito do projeto Soreq. A iniciativa se desenvolveu em um contexto de sigilo, com apoio tecnológico inicial dos Estados Unidos, sob o programa “Átomos para a Paz”.
Apesar desse suporte inicial, a construção de armamentos nucleares não teria ocorrido com pleno conhecimento da administração norte-americana, segundo o historiador Manoel Bandeira. A Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) teria identificado as instalações em Dimona apenas anos depois, alimentando especulações sobre o grau de conivência ou desconhecimento da comunidade internacional.
A ausência de responsabilização contrasta com a firme oposição israelense ao programa nuclear iraniano. Tel Aviv tem conduzido operações militares e diplomáticas contra as ambições atômicas de Teerã, ao mesmo tempo em que desconsidera reiteradas resoluções da Organização das Nações Unidas que pedem a adesão de Israel ao TNP.
A Resolução 487 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 1981 após o bombardeio israelense ao reator iraquiano de Osirak, condenou a ação e apelou para que Israel submetesse suas instalações nucleares à supervisão da AIEA — demanda jamais atendida. Em 2009, a agência internacional renovou esse apelo, solicitando formalmente que o país aceitasse o regime de inspeções. A negativa israelense baseou-se no argumento de que a adesão a tratados internacionais é uma prerrogativa soberana.
Para o cientista político Ali Ramos, especialista em política internacional e estudos sobre o Oriente Médio, a situação evidencia uma assimetria na aplicação das normas do direito internacional. “Israel se beneficia de uma complacência sistemática por parte das grandes potências, que adotam critérios seletivos. O rigor aplicado a certos países é substituído por retórica diplomática quando se trata de aliados estratégicos”, afirma. Ele observa ainda que, ao contrário das potências nucleares reconhecidas, cujos programas passam por algum tipo de monitoramento, o de Israel opera em total opacidade.
O professor Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), ressalta que essa política de blindagem internacional compromete a integridade do sistema global de não proliferação. “A existência de um programa nuclear fora de qualquer estrutura de fiscalização representa um desafio grave à legitimidade das instituições multilaterais encarregadas da segurança internacional”, adverte.
O caso israelense levanta questionamentos não apenas sobre equilíbrio geopolítico, mas também sobre os limites da legalidade internacional diante de atores protegidos por alianças estratégicas. Na prática, a manutenção de um arsenal nuclear fora de qualquer estrutura de controle mina os princípios de universalidade e igualdade que sustentam o regime de não proliferação.

